segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

P872: CAPITÃES DE UM IMPÉRIO

O PONTÃO

No final dos anos sessenta alguns Capitães já estavam a cumprir uma terceira comissão de serviço algures na mata africana.

Um desses Capitães comandava uma Companhia de Atiradores colocada em Aldeia Formosa que, entre outras missões, era responsável pelas escoltas às várias colunas de abastecimentos em géneros e material que partiam de Buba com destino a Aldeia Formosa e Gandembel.

Minas, fornilhos, emboscadas e, não menos, inundações provocadas pelas chuvas,  faziam um escasso percurso de algumas dezenas de quilómetros demorar por vezes dois dias a completar.

Depois de inúmeros "atascamentos" de viaturas sobrecarregadas alguém terá informado o Capitão da existência de um pontão desmontável algures num armazém de Engenharia em Bissau.

Foram enviadas sucessivas mensagens ao Quartel-general de Bissau, com conhecimento aos responsáveis pelo material de Engenharia, solicitando o "empréstimo" do pontão referido, pelo menos durante a época das chuvas.

As respostas recebidas (e foram várias) eram sempre iguais:
- “Não existe à carga dos nossos armazéns nenhum pontão desmontável como o referido no pedido.”

Depois de mais algumas colunas com "atascamentos" vários, o Capitão aproveitou o facto de se tornar necessário trocar em Bissau uma velha camioneta por uma outra (menos velha…) para, com alguns soldados, acompanhar a viatura na sua viagem a bordo de uma lancha da Marinha rumo a Bissau.

Como tudo estava preparado, a troca foi rápida, e ficaram com um dia livre em Bissau até terem novo transporte da marinha para Buba. Esse dia foi usado, (entre outras coisas!), para "experimentar" a viatura.

Um simples acaso levou-os até aos armazéns onde o tal pontão estava guardado. Era hora do almoço, ninguém se encontrava nas redondezas do armazém, e a porta estava aberta (alguém me disse posteriormente..."quase" aberta…).

Como por milagre as diversas partes do pontão surgiram sobre a camioneta, seguindo-se uma discreta e inocente retirada do local.

Meses mais tarde e depois de o pontão ter sido usado inúmeras vezes, chega a Aldeia Formosa mensagem do Quartel-General (QG) exigindo a presença imediata do Capitão.

De regresso de férias em Lisboa, encontro o referido Capitão (por quem sentia profundo respeito, tanto pela sua coragem em combate como por muitas outras qualidades pessoais) precisamente quando este se dirigia para o QG.

Convidou-me de imediato a acompanhá-lo, pedindo-me para segurar uma volumosa pasta enquanto ele tivesse o encontro com o "Chefe" que o chamara.

Aguardei no corredor frente ao gabinete.

Como a porta se mantinha aberta tive oportunidade, não só de ouvir o que lá se dizia, como de verificar que, apesar de existirem várias cadeiras colocadas junto à secretária do "Chefe”, este não convidou o Capitão a sentar-se como seria  habitual (recordo ter pensado: Vai haver merda!)

"Oiça lá... nosso Capitão!  Fomos informados de que está a  utilizar material de Engenharia, um pontão desmontável, retirado de um armazém sem qualquer autorização ou sequer conhecimento do facto por parte dos responsáveis.
Clarinho, clarinho para militar entender, eu chamo a isso: Roubo!
Com que termo é que o nosso Capitão define este facto?"

(Ainda no corredor, tornei a pensar: Não vai haver merda, vai haver montes de merda!)

Foi então que, (para meu espanto!),o Capitão pediu autorização para me fazer entrar no gabinete, informando o "Chefe" que eu tinha em meu poder uma pasta com documentos relacionados com o assunto em causa.

Entreguei-lhe a pasta.  Abrindo-a, colocou respeitosamente sobre a secretaria as várias mensagens recebidas em Aldeia Formosa em resposta às requisições feitas sobre o pontão.

Mantendo-se em rígida posição militar de "sentido" comentou:
- “Saiba Vexa. que me é impossível roubar do material de Engenharia um pontão desmontável que, e segundo todos os documentos que apresento, não existe em todo o Comando Territorial Independente da Guiné!”

Depois de ler e reler cuidadosamente  os documentos à sua frente, é difícil descrever o olhar que o Exmo. Hierarca dirigiu ao Capitão.

"Pode-se retirar e voltar para a Companhia. Será oportunamente informado de qualquer procedimento!"

O tempo passou, as nossas respectivas comissões terminaram, a nossa forte amizade pessoal manteve-se.

Anos mais tarde, voltei a encontrá-lo quando ele comandava o Regimento de Artilharia de Cascais, sentado num gabinete e do outro lado de uma secretária... em tudo semelhante á do Quartel-general de Bissau.

Depois da rígida continência "da ordem" disse-lhe desde a porta:

- “Desculpe meu Coronel mas esqueci-me da pasta com os documentos!".

Um abraço do
José Belo

Nota: Para ilustrar o texto socorremo-nos de imagens retiradas da Net, que reproduzimos com a devida vénia ao Blogue da Reserva Naval (LDG) e Luís Graça & Camaradas da Guiné (as restantes).
Os editores

5 comentários:

joaquim disse...

Grande história Zé Belo!

Faz lembrar a dos holofotes para Luanda!

Ao que se contava foram embarcados com destino a Luanda holofotes daqueles de iluminar o céu.

Resumindo os holofotes levaram sumiço e o oficial encarregue da coisa não teve dúvidas e mandou proceder a um auto de eliminação do material com a desculpa que os holofotes teriam caído à água durante o embarque.

Passados uns tempos aparecem os holofotes que afinal não tinha sido embarcados.

Conta a história que, para grandes males grandes remédios e o dito oficial os terá mandado atirar, definitivamente, ao mar!!!!

Grande abraço Joaquim

Carlos Pinheiro disse...

O clima de guerra proporcionou muitas cenas mais ou menos caricatas. Sem querer falar no acerto de contas de mantimentos e outros viveres quando havia ataques, lembro-me duma Companhia independente que tinha acabado a comissão. Foi nomeada a Comissão liquidatária: - O 2º Cmdt, um Alferes, e mais um Sargento. Faltava material à Companhia nomeadamente lanças de reboque de viaturas, correntes, capotas, rodas, etc. Pois a tal Comisão Liquidatária desenrascou-se e quando foi entregar o equipamento à Companhia de Piriquitos que os ia susbstituir até uma GMC sobrou. E não houve problema.

Anónimo disse...

Excelente história bem representativa das "pesados" procedimentos militares da época e do desenrascanso que era preciso ter para se conseguir alguma coisa tão imprescindível como o tal pontão, que não "existis" nos armazéns de Bissau.
Narrativa muito bem conseguida pelo nosso Camarigo José Belo, a quem mando um grande abraço.
JERO (CCaç.675)

JB disse...

Recordacöes encontradas em folhas já bem amareladas de velhos rascunhos.

Para os que vivem "aqui,ali ou acolá" o desenquadramento destas histórias com as modernas realidades envolventes quase acabam por criar esquizofrenias profundas.

As sombras (longas de quatro décadas) de outras bandeiras ,fazem-nos apreciar em todo o seu significado o que o Joaquim täo bem descreveu no seu P867/Desabafo.

Citando: "Por isso cada vez mais prezo a companhia dos combatentes,em que damos abracos,dizemos asneiras,rimos,gargalhamos,até nos zangamos para depois fazer as pazes,e por vezes até choramos,mas temos sempre um ombro amigo para enxugar as lágrimas".

Um abraco do José Belo

MANUEL MENDES Mendes disse...

Para não ser só tristezas, vou deixar aqui uma lembrança real; em 1967, numa tarde, estando eu de serviço nas transmissões no ÚCUA que ficava num alto junto à serração de madeiras, tinha partido Um camião da fazenda para ir buscar à mata mais toros acompanhados como todos os dias por um grupo de colegas meus. Passados poucos minutos ouvimos umas rajadas de armas automaticas e a seguir o silencio. Pensamos que teriam sido objecto de uma emboscada e apressei me a telefonar ao comandante o que tinha acontecido. Dá ordens para imediatamente avançar o de grupo de combate do Alf Barros Ferreira e como se encontrava um heli que apoiava a operação QUISSONDE em que era CMDT o Celebre TOTOBOLA, manda este também em socorro. O Nosso CMDT. Cor. Pires Simões veio para junto de nós que daí quase se avistava o local indicado. Para espanto o heli volta para o seu local e o grupo de combate também e transmite ao comandante que tinham sido os outros colegas que tinham matado um veado. Ainda hoje me dá vontade de rir, lembrando o CMDT a dizer: MALANDROS ISSO NÂO SE FAZ, AGORA QUE VAI DIZER PARA LUANDA O PILOTO DO HELI.Como tinhamos um homem com um H GRANDE no comando nimguem foi castigado.