segunda-feira, 16 de abril de 2018

P1015: REVISTA "KARAS" DE ABRIL

Chegado bem cedinho ao local da concentração o Miguel Pessoa teve a possibilidade de rever caras há algum tempo afastadas dos nossos convívios - caso do Francisco Palma e Juvenal Amado - e registar desde logo a presença do estreante António Joaquim Alves, vindo à boleia do Juvenal.
E, encaminhados pelo Paulo Moreno, logo mais dois estreantes se apresentavam - o Jorge Lima Basto e o Júlio Pereira - estreia aqui apadrinhada pelo Manuel "Kambuta" Lopes, Fernando Freitas Pinto, Miguel Pessoa e Silvério Lobo - que por sua vez trazia a reboque um outro estreante, o Joaquim Silva.
E continuavam os registos de estreantes no nosso convívio, caso do António Neves Gomes e do Mário Lopes, trazidos pelo Fernando Freitas Pinto. Enquanto os estreantes Lima Basto e Júlio Pereira "absorvem" o ambiente... e o Carlos Pinheiro aprecia...
Aleluia! O grupo de Aveiro desta vez vinha completo... Vemos o Manuel Reis, Carlos Prata, José luís Malaquias e Carlos Augusto Pinheiro, aqui acompanhados pelo José Luís Rodrigues.
Referimos no início o caso do José Salgueiro que por mero acaso se encontrava no Café Central no exacto momento em que ali nos concentrámos. Sendo um combatente da Guiné acabou por aceitar o convite para se nos juntar. Aqui, apadrinhado pela Giselda e pelo António Sousa, que o acompanhou durante o almoço.
O Silvino Correia d'Oliveira (BA12 - Bissalanca) falhou à última hora a presença nos dois últimos convívios. Desta vez apareceu... Aqui conversando com o Miguel Pessoa, seu contemporâneo na Guiné.
Uma perspectiva da concentração, uma fase sempre apetecida que se presta a pôr em dia as conversas interrompidas há um mês atrás.
O casal Lobo voltou a estar presente, e com eles o júnior Lobinho. Vemos aqui a Linda Lobo e o netinho junto da Helena Oliveira, esposa do JERO.
O JERO conseguiu convencer a Helena a estar presente neste convívio. Pois se até tinha festa do seu aniversário!... Para que a coisa corresse bem ainda trouxe uns miminhos para o fim do almoço, que aqui transporta com a ajuda da Maria Arminda.
Estava na altura da abalada para o almoço, o que o pessoal faz sempre com grande ânimo. Já são quase 13H30 e alguns tomaram o pequeno almoço cedinho...
Não impediu que na rampa de acesso ao salão fossem ultrapassados por uma retardatária que transportava um dos bolos de aniversário. Sim, porque para além do bolo encomendado pela Tabanca do Centro, o Agostinho resolveu encomendar, por sua iniciativa, um ainda maior. O curioso é que, embora com tamanhos diferentes tinham um aspecto muito parecido, pois foram encomendados na mesma casa...
O grupo de Torres Novas apareceu desfalcado. Vemos o Lúcio Vieira e o Carlos Pinheiro, ladeados pelo estreante José Salgueiro e pelo António Sousa, que o "escoltou" durante o almoço.
Dois casais assíduos nestes convívios - o Luís Dias e esposa Manuela mais o António Frade e esposa Helena.
O Amado Chefe juntou na sua mesa os dois aniversariantes, JERO e Agostinho Gaspar (que não ficou nesta foto). Visíveis ainda, o Manuel Frazão Vieira, Raul Castro e Vitor Caseiro.
Uma montagem fotográfica permite ver a mesa inteira, com o casal Marques (Fernando e Gina), casal Silva (Francisco e Elisabete) e Casal Lobo (Silvério e Linda) mais o júnior Lobinho. A Helena, esposa do JERO, ficou sem par, que o marido tinha ido para a mesa do Amado Chefe...
E sai mais uma montagem para podermos ver o grupo de Aveiro - José Luís Malaquias, Carlos Prata, Manuel Reis e Carlos Augusto Pinheiro - acompanhados pelo Carlos Manata e José Luís Rodrigues.
O Joaquim Espírito Santo Oliveira (à direita) andava afastado há uns tempos. E o Carlos Santos, como habitualmente encarrega-se de trazer mais uns tantos camaradas - Frederico Biel, Mário Lourenço e Alípio Martins (o qual, á última hora, ainda trouxe mais dois acompanhantes).
Ausente o Kambuta - que andava entretido a tirar fotografias - vemos na foto a esposa Hortense mais o regressado Francisco Palma e o Almiro Gonçalves...
...estando do outro lado da mesa a Amélia Gonçalves, o Miguel Diniz e  esposa Judite mais o Juvenal Amado. Este tem tido dificuldade em conciliar a sua vida pessoal com os nossos convívios, pelo que a sua presença é sempre de festejar.
Aparece sempre pessoal inscrito por outros camaradas, como é o caso do Benjamim Mira Dinis, inscrito pelo Manuel Frazão Vieira, e do António Neves Gomes, inscrito pelo Fernando de Freitas Pinto.
O Jaime Brandão é de certa forma "intolerante" ao cozido à portuguesa, pelo que por vezes se fica por uma sopinha do cozido. Sabendo disso a Giselda tomou a iniciativa de lhe trazer uma favinhas com entrecosto, para o rapaz não se ir abaixo... E parece que estavam boas, segundo reporte do próprio...
Aproximando-se o fim do almoço. era hora de se homenagear os aniversariantes com umas palavras de ocasião proferidas pelo Régulo da Tabanca. Depois cantou-se os "Parabéns a Você"...
...findos os quais os aniversariantes foram escoltados pelo Amado Chefe até à mesa das sobremesas, onde os homenageados cortaram os bolos de aniversário.
Um aspecto da mesa das sobremesas, enriquecida pelos referidos bolos da aniversário e ainda por uns miminhos trazidos pelo JERO de Alcobaça, onde avultava uma excelente Ginjinha.
Por iniciativa do "carola" Paulo Moreno todos os anos no fim do mês de Março tem sucedido a entrega de uma garrafa de espumante ao Miguel Pessoa por parte do pessoal presente no Guileje à data da sua ejecção na zona, quando fazia um apoio de fogo ao aquartelamento.
Desta vez a comemoração escorregou um pouco por via do adiamento deste último almoço, que já veio a cair em Abril. E como de costume a garrafa de espumante vinha decorada com um avental alusivo à data da oferta. Como devem calcular o Miguel Pessoa já tem uma colecção interessante de aventais recebidos nestes últimos anos...
E na pose da praxe incluiu-se a Giselda, que procedeu à evacuação do Miguel Pessoa de Guileje para Bissau... e que continuou a aturá-lo depois disso, pois estão casados desde 1974... Vemos os dois aqui com o José Luís Rodrigues, Manuel Reis, Joaquim Oliveira e Carlos Santos.

E, claro, com o pagamento da refeição iniciava-se a dispersão do pessoal até à próxima concentração...

sexta-feira, 13 de abril de 2018

P1014: NA GUINÉ, Há 50 ANOS

Reproduzimos um texto publicado no jornal comunitário "abc Portuscale", nº 97 de 23 de Dezembro de 2017, com os nossos agradecimentos ao nosso camarigo Raul Castro, que nos enviou a publicação, e a devida vénia ao "abc Portuscale" e ao Coronel Manuel Bernardo, que assina o texto.
Os editores


segunda-feira, 9 de abril de 2018

P1013: UM OUTRO REGRESSO...


Ainda na continuidade do texto do Joaquim Mexia Alves, recentemente publicado (ver aqui), veja-se como, dependendo dos interesses pessoais de quem ouve, o resultado de uma conversa pode ser completamente diferente… Um texto do Zé Belo.

OUTROS OUVINTES, OUTRA REACÇÃO…

Regressado de "fresco" do sul da Guiné fui colocado como instrutor no Regimento das Caldas da Rainha.

Aí se encontravam cinco Tenentes oriundos da Arma de Engenharia que tinham sido punidos e mobilizados para a Guiné.

O "crime" por eles cometido mais não fora o de terem usado um direito legal de que dispunham dentro da instituição militar de, como engenheiros já formados, pedirem a passagem à Reserva depois de um curto período de serviço nas fileiras.

Poderemos pensar muitas coisas quanto ao facto de estes camaradas se servirem da instituição militar para tirar gratuitamente o seu curso de Engenharia  e, depois de curto espaço de tempo, o quererem vir a usar exclusivamente na sociedade civil.

Mas o facto é que a lei que lhes dava tal direito existia então e tinha sido utilizada por muitos outros engenheiros militares em períodos anteriores.

As autoridades de então decidiram castigá-los pelo requerimento (legal, e repetindo-me, pense-se o que se pense do mesmo).

Foram compulsivamente transferidos para a Arma de Infantaria e de imediato mobilizados para a Guiné como Tenentes Atiradores.

Foi nessa situação que os encontrei e, sentados um fim de tarde na messe de oficiais do Regimento, tive oportunidade de responder às inúmeras perguntas que tinham quanto à situação militar da Guiné no início dos anos setenta.

Não os conhecendo pessoalmente e tendo em conta os tempos que então se viviam, recordo não ter feito qualquer comentário pessoal quanto ao que pensava sobre a guerra da Guiné, limitando-me a responder o mais factualmente que sabia às inúmeras  e mais variadas perguntas que me iam sendo postas.

Curto tempo depois desta nossa conversa sou informado por outros camaradas que os Tenentes se tinham ausentado ilegalmente do país, encontrando-se alguns em França e outros na Suécia.

O mundo é pequeno nas suas voltas e, depois do meu pedido de passagem à Reserva em fins dos anos setenta, com mudança definitiva para a Suécia, vim a encontrar em Estocolmo um destes senhores Engenheiros, então casado com uma senhora funcionária superior do nosso Consulado.

Foi um curtíssimo encontro no aeroporto de Estocolmo, não tendo eu tido a oportunidade de colocar a pergunta que ainda hoje me ponho: …Até que ponto as minhas respostas às perguntas detalhadas que me colocaram terão sido uma das "gotas finais" nas decisões que tomaram?

Tempos depois dá-se a revolta do Regimento das Caldas e... o resto  são  histórias da nossa História.

Estes então jovens tenentes terão, muito ao contrário da personagem da história do Joaquim, sabido ouvir.

Só que, talvez, só tenham ouvido o que queriam ouvir!

Um grande abraço desde a Lapónia Sueca
José Belo


sábado, 24 de março de 2018

P1009: A FALAR SOZINHO...

O REGRESSO

O homem sentado ao seu lado, ao balcão daquela cervejaria, olhava para ele com uma expressão entre o incrédulo e o trocista.

Há algumas horas que estavam ali sentados, bebendo cervejas atrás de cervejas, e conversando.
Não se conheciam de antes daquele dia, mas o facto de estarem os dois numa tarde de semana sentados ao balcão de uma cervejaria, tinha levado, depois de alguns apartes, ao início de uma conversa sobre tudo e mais alguma coisa e como não podia deixar de ser, ao estado do país.

Indubitavelmente a guerra do Ultramar veio à conversa e, perante os comentários errados e ignorantes daquele que estava ao seu lado sobre o assunto, ele decidiu dizer-lhe que tinha regressado há escassas semanas da Guiné, onde terminara uma comissão militar de 24 meses.

Ou pelas expressões do outro, ou pelas cervejas já bebidas, ou por uma necessidade interior de contar o que tinha visto e vivido (pois que à família e amigos lhe era difícil falar do assunto), deu por si a relatar as operações, as emboscadas, as colunas, as minas, as coragens e os medos por que tinha passado e estavam tão vividas e sentidas em si.

As palavras saiam-lhe em catadupa, e parecia que estava a falar mais para si do que para o outro, que o escutava, por vezes entediado e outras poucas vezes, interessado.

De vez em quando uma frase desgarrada do outro, tal como, “isso é impossível”, ou “foi mesmo assim?”, levavam-no a quase parar a sua narrativa, mas a verdade é que ele ansiava por falar sobre a guerra, e um desconhecido era o interlocutor ideal para o ouvir.

As cervejas iam sendo colocadas no balcão e bebidas, e agora era ele quem as pagava, porque o outro tinha feito menção de se ir embora e ele não queria ficar ali sozinho a remoer nas suas recordações e, sobretudo, não queria perder aquele momento de contar a sua guerra, particularmente a si próprio.

Parecia-lhe que à medida que ia contando os factos eles deixavam de fazer tanta mossa nos seus sentimentos e, embora sentisse que tudo aquilo o tinha marcado e continuava a marcar por muito tempo, percebia um certo alívio em libertar-se de algum modo daquelas memórias dolorosas.

Percebia que o outro o olhava de um modo estranho, às vezes quase com medo, mas ele ia-o tranquilizando com expressões mais calmas e sobretudo com mais uma cerveja.

Sucediam-se as emboscadas, as colunas, o medo, o anseio sentido ao levantar esta ou aquela mina.
Queria expressar as dificuldades, a sede, o medo do desconhecido, os sons da mata e os cheiros das bolanhas, mas as palavras pareciam-lhe poucas e sobretudo sem exprimirem verdadeiramente aquilo que ele tinha sentido e ainda sentia.

Falava-lhe já dos soldados africanos que com ele tinham combatido e sentia-os próximos, sentia uma saudade inexplicável daquelas noites no planalto, à luz da vela, tentando perscrutar para além do negro da mata que os rodeava.

A única coisa que naquele momento o ligava àquele balcão era a cerveja e a sua presença física, porque tudo o resto que era o seu ser se tinha transportado para a Guiné.

Falava de rajada, as palavras lançadas para a frente como facas, a incompreensão das vidas ceifadas tão novas, misturadas com uma noção de dever ainda tão arreigada, mas sobretudo o pensamento de que estava a falar para nada, que estava a falar para ninguém, porque afinal ninguém queria ouvir o que estava a contar.

Primeiro porque pela expressão do outro, percebia a incredulidade com que o ouvia, pois deveria parecer-lhe que ele estava a descrever um qualquer filme americano de guerra.

Depois, porque percebia também que o outro não queria ser incomodado com algo que podia ser verdade, muito verdade, e se assim fosse teria de ser objecto de uma reflexão que ele, o outro, não queria fazer.

Era essa a sensação que tinha desde que tinha regressado da Guiné!

Os que por aqui estavam e viviam as suas vidinhas, não queriam saber!

Tinha regressado bem? Estava vivo?
Ainda bem! Mas agora escusava de vir contar histórias de uma guerra longe, muito longe, que não tinha nada que vir afectar as suas vidas.

Por um lado as palavras sobre a guerra saíam da sua boca, mas por outro lado o pensamento insistente de que estava a dar uma seca ao outro, que não queria acreditar no que contava, que não queria incomodar-se com guerra nenhuma, cada vez mais era premente na sua cabeça.

De repente calou-se e olhando para o outro perguntou:
Você não acredita em nada disto, pois não?

O outro abriu um sorriso, e numa expressão amigável disse:
Eu logo vi que o amigo estava a brincar! Mas, gaita, que você tem cá uma imaginação!

Olhou-o então nos olhos e disse-lhe em tom pausado, mas firme:
Também eu pensava assim quando lá cheguei, e até ouvir e sentir os primeiros tiros a passarem ao meu lado. Só então tomei consciência que aquilo era uma guerra onde morria gente.
Não se preocupe com isso, e vamos beber outra cerveja.

Num instante olhou para o lado contrário, para que o outro não visse a lágrima teimosa que lhe rolou pela cara abaixo.

Estava no seu país, e ninguém o conhecia, ninguém queria saber o que tinha passado.

Era um estranho na sua própria casa!


Joaquim Mexia Alves