sábado, 14 de janeiro de 2017

P867: DESABAFO

ESTOU CANSADO!

Sento-me nas minhas memórias e deixo-me assim ficar um pouco.

Estou cansado!
E não sei bem do que estou cansado!

Apetece-me voltar a uma ou outra tarde na Guiné, no planalto do Mato Cão, sentar-me na minha cadeira, com uma cerveja na mão, e deixar-me ficar ali, sem ontem, sem amanhã, apenas e só naquele momento.

Como é possível que pelo meio da guerra houvesse momentos em que sentia uma paz imensa, uma quietude silenciosamente empolgante, uma serenidade quase divina que naqueles momentos nada poderia afectar.

No fundo era quase uma fuga do mundo, embora o mundo me rodeasse.

Afinal talvez perceba porque estou cansado.
Provavelmente estou cansado deste mundo que me parece cada vez mais egoísta, o que é curioso, porque cada vez mais se fala em solidariedade, em ajudar os outros, etc., etc.

Tenho sinceramente saudades do tempo em que os homens apertavam as mãos e assim selavam negócios, construíam amizades, estabeleciam sociedades e se ajudavam mutuamente a cumprir os seus compromissos.
De quando não tinha que se interpretar o que os outros diziam, porque o que eles diziam, tal como nós, era límpido e sem subterfúgios, pelo menos de uma maneira geral.

Tenho saudades dos tempos em que se davam dois murros e se levavam três e depois se ia beber uma cerveja, porque estava tudo resolvido.
Agora só se se for beber a cerveja ao hospital enquanto somos tratados da facada, ou do tiro que levámos, por nos termos esquecido do tempo em que vivemos.

Por isso cada vez mais prezo a companhia dos combatentes, em que damos abraços, dizemos asneiras, rimos, gargalhamos, até nos zangamos para depois fazermos as pazes, e por vezes até choramos, mas temos sempre um ombro amigo para enxugar as lágrimas.

Estou cansado, mas só até ao próximo almoço da Tabanca do Centro!


     Monte Real, 14 de Janeiro de 2017
     Joaquim Mexia Alves

5 comentários:

MANUEL MENDES Mendes disse...

Joaquim Mexia, gostei muito do seu DESABAFO. Quantas vezes eu tenho me lembrado das palavras de meu pai lá pela minha aldeia minhota quando era ainda muito jovem trabalhando com ele no campo, por vezes até descalços e com as calças ou outras roupas cheias de remendos. Adorava o ouvir dizer: Filho a nossa palavra tem que valer mais que toda a riqueza. Dizia ele que um homem sem palavra séria, não tem qualquer valor nem credito. Sabia que ele, tinha todo o credito do mundo nas aldeias e vilas à volta e que comprava primeiro e pagava depois das suas colheitas que obtia nos campos. Já partiu à 36 anos, mas recordo hoje e sempre suas palavras que deixou de bom para os seus sete filhos. Hoje talvez mais de 80% das pessoas, não tem palavra, não à respeito pelos outros e muito menos merecem credito. Esta educação começou a desenvolver se depois do tal 25 em que as pessoas passaram a pensar só nelas próprias e pior ainda começando pelos governantes que apenas pensam neles próprios tentando todos os dias enganar aqueles que trabalham e ainda são sérios mentalmente e profissionalmente. Pelo menos ainda os COMBATENTES DO ULTRAMAR, na sua esmagadora maioria vão conservando esses valores e que enquanto formos vivos vamos nos juntando para relembrar os nossos passados e presentes e tentando transmitir aos nossos filhos, netos e outros os valores que os nossos antepassados nos deram como uma HERANÇA DE GRANDES VALORES.

joaquim disse...

Obrigado Manuel Mendes.

Grande abraço

Hélder Valério disse...

Caro Joaquim

Este teu "desabafo" é justo.
Ele é o espelho do desencanto que temos (e escrevo no plural porque sinto que todos nós, até por motivos ou pretextos diferentes, sofremos destes males) relativamente ao que idealizamos em confronto com a crueza da realidade.
E o que é que idealizámos?
Uma sociedade mais justa, de Homens, de palavra, empenhados em melhorarem constantemente (não seria o Homem um 'pequeno Deus' já que foi feito à Sua imagem e semelhança?) a si mesmo, os seus semelhantes e, por extensão, a Humanidade? Que praticassem o bem comum? Que soubessem estender a mão ao seu semelhante em dificuldades, ajudando-o a levantar-se, a seguir em frente? Sim, isso tudo e muito mais.
E o que é o 'confronto com a realidade'?
Falsidade, hipocrisia, vaidade, traição à palavra dada, etc.
E, infelizmente, isto não é uma 'coisa local'. Vemos isto de uma forma generalizada no Mundo. Não se trata de nenhuma herança dum qualquer "tal 25", é algo mais complexo que afecta a humanidade, focalizar no nosso País é redutor demais, mas a discussão disso não tem aqui cabimento.

Mas sim, Joaquim, muitas vezes é necessário fazer essas pequenas viagens de introspecção para recarregarmos baterias e voltar as enfrentar as tempestades da vida.
E os Convívios são boa fonte de energia!

Abraço
Hélder Sousa

joaquim disse...

Meus queridos camarigos

Muito obrigado pelas vossas palavras, pela vossa solidariedade, mas sobretudo por me fazerem sentir que ainda há muita gente que pensa e acredita nos valores da honra, da honestidade, da franqueza, da verdade e da amizade.

Para todos vós, um enorme e amigo abraço do
Joaquim

Anónimo disse...

Boa tarde Amado Chefe Joaquim Mexia Alves
Mais vale tarde...Já li há uns dias o teu "desabafo" mas tenho andado com uma vida tão complicado que me falta o tempo para tudo o que quero fazer.Ontem convenci-me a mim mesmo que não podia passar de hoje e aqui estou a dizer que estou contigo. Sempre.E sei que muitos mais camaradas também estão.Por isso estamos contigo quando dizes que cada vez mais prezas a companhia dos combatentes, em que damos abraços, dizemos asneiras, rimos, gargalhamos, até nos zangamos para depois fazermos as pazes, e por vezes até choramos, mas temos sempre um ombro amigo para enxugar as lágrimas.Abraço fraterno, Joaquim.
JERO