sexta-feira, 27 de junho de 2014

P514: BOAS INTENÇÕES...



Este texto foi publicado no blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné” há já cinco anos. É possível que muitos não o conheçam, por isso decidimos apresentá-lo neste nosso espaço.

  MANGA DE VENTO!... OU NÃO?!...

Para além das informações de direcção e intensidade do vento fornecidas pelas torres de controlo, via rádio, muitas vezes o aviador tem que se socorrer de outros meios quando essa informação não está disponível. Por isso todos os aeroportos e aeródromos dispõem de mangas de vento, que permitem ao piloto ter uma ideia aproximada de onde sopra o vento e com que intensidade. Os automobilistas podem também observar estas mangas de vento nas auto-estradas, em zonas mais batidas pelo vento.

Basicamente a manga de vento é um aparelho constituído por um cone de tecido com duas aberturas, sendo uma delas, a maior, ligada a um aro de metal. Esse aro, preso a um poste de um modo que permita liberdade de rotação, faz com que o cone esteja aberto, entrando o vento por este lado e saindo pelo lado mais estreito. A manga fica assim enfiada com o vento, dando uma indicação visual da sua direcção.

Olhando para uma manga, podem observar-se as diversas listas que a constituem, alternadamente vermelhas e brancas. Quem pensa que essa decoração serve apenas para a manga se poder ver melhor, está ligeiramente enganado. Na verdade as mangas podem ser calibradas de modo a darem uma indicação da intensidade do vento. Por norma cada lista representa cerca de 5 km/h de velocidade do vento, Assim, se as duas primeiras listas estão enfunadas e as seguintes descaídas, podemos considerar que o vento sopra com uma velocidade aproximada de 2x5=10 km/h.

O pessoal que passou pelos aquartelamentos com pista de aterragem pôde observar essas mangas colocadas a uma distância de segurança da pista, infelizmente muitas vezes em mau estado de conservação. Isso devia-se em parte à dificuldade em se conservar a manga em bom estado, por falta de material de substituição, mas também à pouca sensibilidade do pessoal do quartel para o interesse que essa informação representava para o piloto.

Sucedeu a um piloto da nossa praça que, tendo demandado um aeródromo algures na Guiné, ali chegado tivesse experimentado sérias dificuldades em manter o controlo do avião na aterragem, devido a um forte vento cruzado que se fazia sentir. Acontece que o estado da manga de vento era deplorável e, consequentemente, a informação do vento inexistente, não tendo alertado o aviador para aquelas condições desfavoráveis.

Furioso, o piloto saiu do avião e dirigiu-se ao Maior do aquartelamento, manifestando-lhe o seu desagrado e ameaçando não voltar a aterrar ali se a situação se mantivesse.

Quis o destino que, passado pouco tempo, o mesmo aviador fosse incumbido de uma nova missão para aquele aeródromo, tendo verificado satisfeito, quando preparava a aterragem, que uma nova manga brilhava no respectivo poste. O piloto preparou a aterragem com todo o cuidado pois pelas indicações da manga o vento soprava forte, cruzado de 90º com a pista. Qual não foi o seu espanto quando, depois de tocar o solo, o avião guinou bruscamente, apontando ao vento (totalmente diferente do que ele esperava); só com grande perícia ele conseguiu evitar a saída da pista e os consequentes danos no avião.

Mais uma vez foi ter, furioso, com o Maior do quartel, perguntando-lhe que raio se passava com a porcaria da manga, que o tinha induzido em erro. Enfiado, o outro respondeu-lhe que tinham resolvido meter um pau por dentro, para ficar esticada e se poder ver melhor do ar...

A falta de sensibilidade para as necessidades, limitações e problemas dos outros é habitual em sociedade. No caso da Guiné, e naquela época, por vezes os pilotos não compreendiam as necessidades da tropa no terreno e esta, por sua vez, não se apercebia das limitações e necessidades dos aviadores. Mas não foi por isso que, dentro das suas capacidades, os pilotos da Força Aérea deixaram de garantir o seu apoio a este e aos outros aquartelamentos.

Miguel Pessoa
Reproduções, com a devida vénia:
Manga de vento: Imagem de FlyTech, Loja Online;
DO-27: Foto de Carlos Santos.

terça-feira, 24 de junho de 2014

P513: HISTÓRIAS DE TERROR EM BUARKUS



A VERDADEIRA  HISTÓRIA DA  FRELIBU
Sábios historiadores e encartados recensores ainda hoje discutem - que falta faz Don Hermano Saraiva! – a data rigorosa que alcandorou o reino de BUARKUS a país independente. Uns dizem que foi no século III antes de Cristo, outros, que não senhor, que o encantador burgo nasceu apenas com Don Afonso Henriques, que tinha por hábito vir nadar nas salsas ondas do referido reino e treinar nos extensos areais para estar sempre em forma e poder bater em quem lhe aparecesse à frente, fosse a mãe, fosse um mouro ou fosse um espanhol. Comia tudo pela medida grossa, como sói dizer-se.
Este vosso escriba inclina-se mais para esta segunda hipótese pois, desde o tempo de Afonso Henriques, porrada é coisa que não falta em BUARKUS, sobretudo a partir do momento em que a poderosa FRELIBU tomou conta do poder, já lá vão quase mil anos. 

Mas, deixemo-nos de História de Portugal que isso é campo para o poeta Manuel Maia e ainda por cima explanada em Sextilhas e vamos então dar um salto e centrarmo-nos nos dias de hoje e nos graves acontecimentos que têm ocorrido com consequências gravíssimas que ultrapassam o reino de Buarkus, de Portugal e da Europa. 

Para melhor entendimento dos meus milhões de leitores vamos dividir, tal como fazem os grandes escritores, esta exposição, por capítulos!
I CAPÍTULO
A FESTA ACABOU EM TRAGÉDIA
No fortim de Buarkus não cabia nem mais uma pessoa.
Parecia a Tabanca do Centro no dia do seu quarto aniversário!
Só que em Monte Real a tropa é comandada por um Homem bom, tão bom e amigo que até é chamado de Amado Chefe. Por cá é exactamente o contrário, o ditador que comanda o pessoal, Don Paracleto Mais que Perfeito, que até exige ser tratado por “King of Buarkus“, quando alguém não lhe obedece com a prontidão exigida, logo leva cachaporrada forte e feia.
Mas, contava eu, o pessoal enchia por completo o recinto do castelo, cantava, bebia, dançava, bebia, dormia, bebia, acordava, bebia e bebia e voltava a beber até que sua Excelência, Don Paracleto, a pedido dos seus seguidores, resolve botar faladura.

Sobe ao palanque e logo se faz um silêncio absoluto. A nobre figura começa então a expor as suas ideias:
“Buarcos eu canto
  De noite e de dia
  És o meu encanto
  És minha alegria”
Eis senão quando, de repente, surgido do nada, ouve-se um vozear cada vez mais forte a fazer lembrar um orfeão desafinado, e logo alguém exclama:
- “Não querem lá ver, são outra vez os gajos dos ‘Indignados’ que julgam que o Relvas se acoitou  por aqui e vêm-lhe cantar o Grândola!”
Nada de mais errado!
A cantiga era outra e o assunto muito mais grave. À medida que a banditagem se aproximava  começou a ver-se mais distintamente que não se tratava de manifestantes mas sim do exército de Don Rigoleto que entoava a plenos pulmões:
“Já percebi que Buarcos
 Também ama como nós
 Tem uma noiva vizinha
 A Figueirinha da Foz!”
Houve um momento de hesitação, mas quando a ala feminina dos invasores começou a entoar

 “FIGUEIRA, FIGUEIRA DA FOZ 
  Das finas areias 
  Berço de sereias 
  Procurando abrigo.
  Estrelas, doiradas estrelas
  Enfeitam o Mar
  Que pede a chorar
  Para casar contigo.
  Figueira, e à noite o luar,
  Deita-se a teu lado 
  A fazer ciúmes 
  Ao teu namorado. 
  E a Serra, que te adora e deseja,  
  Também sofre com a luz do Sol 
  Que te abraça e te beija.” 

 (António Sousa Freitas / Nóbrega e Sousa)
Nem queiram saber o que se passou!
Os sitiados, que seriam imediatamente presos se se chegassem ao pé de um balão da G.N.R., sem ser sequer  preciso soprá-lo, cambaleando, bebendo, tropeçando, bebendo, caindo, bebendo, rendem-se de imediato!
Todos se renderam?
Não!
D. Paracleto, King of Buarkus, sozinho, empunha a espada e em “passos de coelho”, ele que na Guiné só caminhava em “passos de ganso”, mas os vapores etílicos haviam-lhe tomada conta das pernas, investe sozinho contra o exército invasor.
Don Rigoleto, King of Buarkus da Foz, de imediato lhe atiça um terrível canzarrão, animal  com quase dois metros de tamanho, que, ladrando, ladrando, salta sobre ele e em sete segundos o abocanha e lhe decepa uma das mãos, deixando-o no estado que a foto abaixo documenta (foto gentilmente cedida pelo paparazzi que tramou o Xico Hollande).
Assim nasceu o conhecido aforismo popular:
Porra, cão que ladra... também morde!”

II   Capítulo
Quem ajuda Don Paracleto, Ex-comandante da FRELIBU ?
Abandonado pelos seus homens, que logo se bandearam para o lado de Don Rigoleto - a fazer-nos lembrar muitos adeptos do pontapé na bola - o nosso Paracleto, que para além de perder a mão também perdera o Don, rastejando como os “sapos e com a farda em farrapos”, conseguiu chegar à mansão do Almirante Vermelho e escondido num alpendre vizinho gritou insistentemente:

- “Help, Help, I need somebody, help!”
 - “Quem será a estas horas e a falar estrangeiro?  Algum dos Beatles, que ao que me dizem estão outra vez na moda? Ou será o Joseph Belo, recém-chegado da Lapónia?”
 "Gritam Help, fortemente
            A quererem falar comigo!
 Será um beatle? Será o Belo?
 Esse grande Camarigo?
 Fui ver! Era Paracleto de Paiva
 Há quanto tempo o não via
 Branco de medo, espumando raiva
 Enquanto a neva caía.
 Entre lá pr'ó meu castelo
 Que eu tenho bom coração
 Mas limpe bem o chinelo
 Sente-se e coma um naco de leitão!”
- “Meu caríssimo Almirante, só o meu estimado, venerável, venerando, respeitával, adorado amigo me pode valer nesta hora de aflição!”
- “Sei da bondade que a Vossa excelsa, excelentíssima, elevada, sublime figura encerra e dos conhecimentos que tem na BUARKUS CLINIC NIC NIC, tão afamada no mundo dos transplantes”.
- “Você, ó Paracleto, tem cá uma lata! Ainda há dias me chamavam XÉXÉ, a mim, que não escrevo nos jornais nem dou entrevistas há mais de dia e meio, na minha própria terra, na minha  própria rua, vem para aqui com falinhas mansas a aproveitar-se do meu coração de manteiga… Você não sabe que a CLINIC NIC NIC foi encerrada pelo Macedo Mete Medo, logo a seguir ao transplante do ‘Transmissões?”?
- “Estou desgraçado!”, choramingou o ex-King of Buarkus.
-  “A única hipótese é telefonar a um Anjo do Céu”, adiantou o Almirante
- “Mas, Almirante, também tem o telefone lá de cima?”, perguntou a medo o Paracleto, apontando para o céu.
- “Não diga disparates, que, se o Amado Chefe o ouve, prega-lhe já um sermão e agora em tempos de Quaresma, afinfa-lhe com trinta Avé-Marias e duzentos Padre- Nossos, que você até anda de roda! Estou a referir-me às enfermeiras paraquedistas da Guiné. Vou já ligar para Lisboa.”
- Trim...trim.. "Fala Giselda Pessoa e pelo timbre do toque creio estar a falar com alguém importante"...
- “Ora, ora, Dona Giselda sou apenas o famoso, célebre, notável Almirante Vermelho, seu camarada da Guiné e adepto do seu e meu GLORIOSO. Como tem passado? E o primo de Vossa Excelência, esse grande Benfiquista Don Gosé y Seara?”
- “Ó Almirante, diga ao que vem pois o meu primo e eu estamos atarefadíssimos a preparar a festa para o Marquês…”
- “Marquês?”, interrompe o Almirante, “cuidava-a republicana dos quatro costados e vai dar uma festa a um marquês?”
- “Você, desde que teve o trombo-braçal, regula mal? A festa do título no Marquês, homem!”
- “Ah, sim, pois claro... onde raio tinha a minha cabeça! Também lá estarei presente com mais sete milhões de apaniguados. Aquilo é que vai ser uma festança de raio e meio. Mas a Dona Gi e Don Gosé também actuam?”
- “Claro, nós somos pessoas de acção e não passamos o dia ao computador com um gato no regaço como certo “Bruninho” que eu cá sei! Até lhe digo mais, vou saltar de paraquedas e aterrar na tola do Sebastião José de Carvalho e Melo. E o meu primo, Don Seara, para que saiba, já anda a treinar um leão que pediu emprestado ao circo Cardinali… e não é que o Simba, em vez de rugir, imita o pipilar  da Águia Vitória.?!...”
- “Mas olhe, sobre o assunto da mão não o posso ajudar pois como já reparou a minha especialidade é mais o pé e aviso-o, não chateie a Maria Arminda que ela, apesar de ser do Vitóguia de Setúbal, está a colaborar connosco  no Festival de Luz e Som. Tenha uma boa noite!”
O olhar de Paracleto cortou-me a alma, tamanha era a tristeza que irradiava.
Vou ter de usar outros trunfos, disse para os meus botões… e  ele até veio fazer a rodagem do automóvel à Figueira... cogitei.
- Tguim... Tguim... Tguim... “Boa tarde, deixe a sua mensagem, mas fique a saber que:
Se vem por bem, o decreto fica em Belém
Se vem por mal, o decreto segue para o Tribunal Constitucional!”
Desliguei, assustado, e a custo e com muito medo voltei a ligar o mesmo número... Tguim... Tguim… E novamente o atendedor automático na versão poética:
Podem gritar mais alto
 Podem tocar a fanfarra
 Que eu daqui já não salto
 Sem a minha querida cagarra

 Ó linda “cagagaguinha”
 Teu piar é o mais belo
 Adoro-te minha amiguinha
 E não falo com nenhum marmelo!”
Furibundo, o Almirante Vermelho bate com o telefone e de pronto manda aparelhar o seu jacto, partindo de imediato para a Casa Branca, White House, em “amaricano” e, contrariando todas as regras de segurança, pois ia a conduzir o avião, saca do telemóvel!
- “Almirante, olhe que não pode conduzir e falar ao telemóvel! É proibido e perigoso e ainda nos acontece como ao outro que caíu no Guileje e o Marcelino está tão gordo que nem daqui a cinquenta anos nos encontra”, disse a custo o co-piloto, esse ilustre figueirense, o Pimentel, conhecido entre as moçoilas por Tó Jó!
- “Cale-se, que você foi anexado e eu vou só deixar uma mensagem no celular do John da Silva, o tratador do cão de água do presidente Obama, que nasceu em Buarcos e é ainda mais benfiquista do que eu. Em dois tempos arranja-nos uma entrevista com o “chefão” e resolvemos o problema da mão!”
Aterrizados em paz, após curta paragem em Sevilha para reparar uma avaria, pois aqueles motores falhavam por todos os lados, o senhor Presidente Barak Obama, em pessoa, veio ter connosco ao avião e, sem mais delongas, logo disparou (estes americanos são danados para disparar) em luso-afro-inglês:
Yu ter duas soluções:
 “Prumeiros”: Ir às Termas de Monte Real “drincar” muita “auga” mergulhar o braço trinta e três vezes e mão crescer. O problem é que o big boss é dos outros e  ainda fazia alguma mezinha...
Sigundos: Fazer a “transplanteixion” da mão do Vata!
- “Mão de vaca? Marchavam já três ou quatro pratinhos”, exclamou com um rasgado sorriso o António Pimentel, mais conhecido nas lides gastronómicas por Don António, O Prior do Prato.
- “Ó Pimentel, controla-te e não te esqueças que agora és da freguesia de Buarcos. Não me envergonhes”, sussurrou o Almirante,  que logo continuou: “A mão do Vata, muito bem visto senhor presidente, aquela invisível mão que mandou o Marselha para o penico e que levou o Tapie a ofender Portugal... (que falta que ela me fez em Sevilha)... mas, excelência, temos o problema da cor…”
- “A cor, seu branquelas de chite”, exclamou furibundo mister president! “Arranjo-lhe a solução e você vem-me falar da cor! Antes preto que reinebô (arco-irís)”, gritou Obama ainda mal refeito do susto que apanhou ao ver o(a) vencedor(a) do Festival da Canção o senhora Conchita.
- “A mão invisível desse grande guineense e benfiquista, saiba você, seu ingrato, está conservada no frio das terras da Lapónia e, se alguma escuridão lhe restar, manda-se à KLINIC NIC NIC 2 onde foi o ministro do vosso reino, o Janelas, ou lá o que é, que após tratamento ficou com tal brilho na dentuça que dá para iluminar o estádio da Luz!...”
- “Tanque-se, senhor presidente e bai bai!”
E “prontus, pá”, ainda no avião, o Almirante mandou preparar a sala dos transplantes, telefonou ao Zé Belo para que enviasse o membro (a mão do Vata, “quer-se dizer”) em rena especial de corrida e hoje o nosso Paracleto é o consagrado guarda-redes da FRELIBU, onde ganha o salário mínimo com direito a passe para o treino, acumulando com o cargo de sócio gerente da conceituada churrascaria “Frango à FRELIBU” que ostenta na sua tabuleta:
FRANGO INDUSTRIAL E CASEIRO
À escolha do freguês
Sente aqui o seu traseiro
E beba um copo de três
Ontem, um qualquer sacana desconhecido pintou as paredes da churrasqueira com frases insultuosas, tais como:
Frango melhor que o teu
Já o comi em Havana
Tem mas é juízo, ó meu
E vai dançar a sevilhana!
Corram o Durão Barroso
De Presidente da Europa
Levem com ele o Cardoso
Mobilizem-nos para a tropa!
E o sacana do espanhol
Que se chama Rodrigo
Não vai mais beber tintol
Passou a ser inimigo.
Na próxima sou eu a marcar
Estou mais do que furioso
Penalti não sei falhar
Não sou o Rodrigo nem o Veloso!
Ao contrário do que seria de esperar não ouvi nenhum movimento da FRELIBU e dizem-me que se preparam em grande para o próximo domingo irem até Lisboa e só depois tratam do assunto como deve ser pois entretanto entregaram o caso do pinta-paredes à Guarda... e bem podem esperar sentados...
Vasco da Gama

quinta-feira, 19 de junho de 2014

P511: AINDA A CERIMÓNIA DO 10 DE JUNHO EM BELÉM




Palavras do Senhor Professor Doutor Henrique Leitão
Cerimónia de Homenagem aos Combatentes em 10 de Junho de 2014

Portugueses – Combatentes de Portugal:

Entendeu a Comissão Executiva para a Homenagem Nacional aos Combatentes convidar este ano, como orador, para proferir umas breves palavras, um professor universitário, que se dedica à história da ciência, que não foi combatente, e que certamente não passou pelas durezas por que muitos de vós passaram.

A oportunidade de me dirigir a esta assistência e ao que ela representa é seguramente uma das maiores distinções que recebi na minha vida. Estou aqui, pois, antes de mais nada, para prestar o meu respeito e a minha homenagem a todos os combatentes, e para, com todos eles, lembrar muito em especial os que tombaram. De certa maneira estou aqui para dar voz a tantos da minha geração que, tendo vivido em circunstâncias muito diferentes das vossas, olham com curiosidade, com admiração e, sobretudo, com imenso respeito, para todos vós.

Ao começar estas breves palavras vale sempre a pena relembrar algo que é para todos nós uma evidência: não viemos aqui para celebrar nem uma ideologia nem uma política. Não viemos nem para comemorar vitórias nem para lamentar derrotas. Não viemos para julgar. Também não viemos apenas para relembrar o passado, como algo frio e distante que se examina com interesse vago ou apenas com saudade.

Estamos aqui neste Dia de Portugal para relembrar e homenagear, talvez com comoção, mas também e sobretudo com alegria, a grandeza dos que lutaram por Portugal, e para comemorar, com esperança, este amor pela nossa terra e pelas suas gentes. A passagem dos anos torna este Encontro Nacional cada vez mais importante e mais significativo. O tempo pode esbater as circunstâncias concretas dos feitos que recordamos, mas realça e torna mais nítidos o esforço e a entrega dos combatentes.

Pobre de um país que não olhe com respeito e admiração para aqueles que o serviram nas situações mais duras e mais extremas. Pobre de um país que não lembre aqueles que por ele deram tudo. Pobre de um país que não recorde os seus mortos. A História de uma nação não é só feita de conquistas materiais – sejam elas de que tipo forem. A história é feita também de memória e de exemplos. Exemplos que o passado projecta no presente e nos esclarecem sobre quem somos. É por isso que o vosso esforço e o vosso exemplo nunca serão esquecidos. Não fui combatente, mas por razões familiares e de amizade, conheci e privei ao longo dos anos com muitos que o foram. Gostava de dizer o que aprendi com eles, ou seja, o que aprendi convosco.

Aprendi convosco que os verdadeiros soldados lutam não porque odeiam o que têm diante, mas porque amam o que deixaram em casa.
Aprendi que das missões em terras distantes nasce o encanto por essas terras e pelos seus habitantes.
Aprendi que o amor ao próprio país não é um sentimento que fecha, mas um abraço que se alarga a outros povos.
Aprendi que nas provações mais duras se forjam amizades que não distinguem nem raças, nem credos, nem origens sociais, nem níveis de instrução.
Aprendi o que é o respeito e a admiração pelos que foram adversários e antigos inimigos.
Aprendi que quem mais preza e deseja a paz é quem já teve que combater.

Estas são lições que têm de ser recordadas às novas gerações – mas são lições que ninguém pode dar melhor do que vós. O vosso exemplo e a vossa presença são hoje tão importantes como no dia em que fostes chamados.

Olhar para esta assistência é também, de certa maneira, olhar para a história de Portugal. Os combatentes do Ultramar são os mais recentes representantes da história singular que o nosso país teve. A história do nosso país enche de surpresa e admiração a quem a estuda: Uma nação pequena, de escassa população e recursos limitados, veio a desempenhar um papel singular na história da Europa e do Mundo. Não foi uma história perfeita de gente irrepreensível (histórias assim não existem), mas só um olhar de imenso cinismo ficaria indiferente perante a grandeza do que foi feito.

Desde muito cedo os habitantes deste pequeno território continental reclamaram independência e afirmaram a sua diferença. Depois, os portugueses foram o primeiro povo europeu a navegar em longa distância nos oceanos de forma estável e habitual, fazendo o que antes deles nenhum outro povo da Europa se atrevera a fazer. Foram o povo que transformou o oceano, que era uma barreira, nos mares que passaram a ser estradas. Aquilo que durante séculos marcava o fim, o términus, passou a ser porta de passagem.

Pedro Nunes, o matemático, o maior cientista da nossa história, sempre parco em palavras e nada dado a devaneios retóricos, disse-o sem timidez: “Os portugueses ousaram cometer o grande mar Oceano. Entraram por ele sem nenhum receio. Descobriram novas ilhas, novas terras, novos mares, novos povos: e o que mais é: novo céu e novas estrelas. E perderam-lhe tanto o medo que nem a grande quentura da torrada zona, nem o descompassado frio da extrema parte do sul [...] lhes pode estorvar. [...] Descobrindo e passando o temeroso cabo de Boa esperança: o mar de Etiópia, de Arábia, de Pérsia, puderam chegar à India. Passaram o rio Ganges [...] a grande Taprobana, e as ilhas mais orientais. Tiraram-nos muitas ignorâncias [...] E fizeram o mar tão chão que não há quem hoje ouse dizer que achasse novamente alguma pequena ilha, alguns baixos, ou se quer algum penedo, que por nossas navegações não seja já descoberto.” (Pedro Nunes, 1537).

Estes acontecimentos colocaram os portugueses em contacto com povos de todo o mundo, misturaram-nos com gente de todas as cores, levaram a fé de Cristo aos mais recônditos cantos da Terra. E espalharam a nossa língua por todos os continentes, a nossa língua que, como diz o poeta, é também a nossa pátria. Os historiadores discutem há décadas como explicar estes factos surpreendentes. Razões económicas, políticas, sociais, religiosas têm sido avançadas como explicação, e todas elas são certamente necessárias. Mas talvez a resposta esteja em olharmos para nós próprios: Arrojados, às vezes imprudentes, sempre prontos para partir, voluntariosos e um pouco desorganizados, fascinados com o novo, com o diferente, sonhadores, assim foram portugueses de todos os tempos. Foi este movimento irreprimível de ir para fora das fronteiras do país que, com o passar dos séculos, nos levou a África e depois nos trouxe até aqui: nos combatentes do Ultramar estão séculos de história. E foi por causa dessa história que agora, no presente, contamos no mundo com várias nações que, com todo o respeito, tratamos como irmãs.

Portugal atravessa de novo momentos difíceis – mas, apesar de tudo, são dificuldades muito mais benignas do que aquelas por que muitos de vós passaram. É nestes momentos que o exemplo de tantos combatentes – tantos que estão aqui e outros tantos que já não se encontram entre nós – se torna mais necessário.

As circunstâncias específicas do momento actual são muito diferentes das que se colocaram diante dos combatentes do Ultramar, mas os desafios não são menores. Também hoje aquilo de que é mais preciso são homens e mulheres que amem a sua terra, e que estejam prontos para trabalhar e lutar por Portugal. Aquilo que os combatentes têm o dever de recordar é que o amor à própria terra é a primeira condição para todo o desenvolvimento e todo o progresso. Aquilo que têm a ensinar é que não há muito a esperar de quem não ama o seu país.

Este Dia de Portugal e esta homenagem aos combatentes relembram o que passou, mas sobretudo olham para o futuro. Estamos aqui como quem, para dar um passo em frente, tem de começar por fincar um pé atrás. Relembramos hoje os que combateram por Portugal porque é o futuro do nosso país que nos interessa. Os nomes que estão nas lápides deste monumento não evocam só saudade e perda; eles comprometem-nos: recordam-nos a todos, de maneira muito severa e muito exigente, que quaisquer que sejam as dificuldades, não se desiste de Portugal. 

Viva Portugal!

Fotos de Miguel Pessoa (1 e 2) e Jorge Canhão (3), com a devida vénia